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A exploração do corpo feminino na mídia perde-se em meio à massiça produção de lixo para entretenimento, a acaba confundindo-se com o próprio entretenimento, a ponto de não nos darmos conta da imensa humilhação a que diariamente são submetidas as mulheres, principalmente na televisão, transformadas em bonecas acéfalas e fúteis pelo senso comum, afim de comercializar a imagem de seu corpo, livre de uma cosciência crítica que possa tomar partido no grande circo da estupidez.

Dessa forma, muitas mulheres acabam encorporando a lógica de seus opressores e reproduzindo disparates inclusive de maior calibre, depreciando-se diariamente em detrimento da “justificativa” de uma certa patologia da normalidade, vendida pelo discurso dominante  à guisa de uma mentalidade saudável e intelectualmente plana.

Este provocativo documentário de  Lorella Zanardo, foi traduzido porPedro Paulo P. de Araujo, deve ser visto como uma tomada de consciência, a partir da qual, nunca mais se verá da mesma forma a exploração da imagem do corpo feminino.

ASSISTA:

Como não costumo assistir televisão, em alguns trechos tive dificuldade para compreender o estranho ritual que sucedia. Talvez tenha perdido o fio da meada que me permitia compreender a liguagem televisiva. Convido a todos a depois de assistir a este filme, desligar por tempo indeterminado este eletrodoméstico obsoleto que habita silenciosa e licensiosamente todos os lares brasileiros.

Publicado originalmente em um antigo blog meu.

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Esbarrei neste trecho fabuloso de uma entrevista com o pauloleminski. Este foi um cara iluminado que viveu sua poesia loucamente. Foi latinista e lutador de judô. Seus poemas são notáveis pelo poder de síntese: concisão e precisão como nas artes marciais. Compôs sobretudo Haikais, flertou com a poesia concreta de Augusto e Haroldo de Campos, com a música popular e escreveu romances, entre os quais destaco Catatau, ficção experimenal, onde narra uma visita de René Descartes ao nordeste brasileiro durante uma expedição do príncipe Maurício de Nassau

“(…)em
confronto direto com a realidade e o calor dos trópicos. Sentado na
areia da praia, em Olinda (que os holandeses chamavam de
Vrijburg), o filósofo do racionalismo aguarda ansiosamente ser
“resgatado” por Krzystof Arciszewski, o comandante polonês da
expedição, enquanto vislumbra aterrorizado jibóias, tamanduás,
plantas carnívoras, “o escambau”. O resultado se traduziria num
delírio da mente cartesiana, o “derretimento” das idéias numa
deformação consentida e proposital do texto. Em alguns momentos,
Descartes aparece fumando um cachimbo preparado com ervas
nativas e de efeitos alucinógenos.”  (Toninho Vaz – Paulo Leminski – O Bandido que Sabia Latim)



essa idéia
ninguém me tira
matéria é mentira


Um dos meus poetas preferidos, certamente um dos poucos  aRTISTAS (sic) do nosso tempo. Arnaldo Antunes é poeta errante entre as linguagens, cientista do ato poético (tomando sua raiz – sou radical, baby – etimológica:   poíesis, criação, invenção). Recentemente teve um de seus poemas reproduzidos num experimento no Centro de Nanociência e Nanotecnologia César Lattes do LNLS, em parceria com o Instituto de Artes da Unicamp, em tese de Giuliano Tosin. Fica aqui um de que gosto muito. Traduz bastante meu atual estado de ânimo. Evoé, caros leitores imaginários!

Eu apresento a página branca.

Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

Contra a água.

Arnaldo Antunes in Tudos


Fluoxetina, Seretide
Cafeína em doses mansas e persistentes.
O Chet a Nina o Miles.
A conta, a Paz a Vida.
Tudo isso não conheço sem olfato. Esta aridez no ar.
É inverno e além do mais…

– Slêncio para um solo de flugel horn –

Inventei a fossa, e agora?
Agora eu danço, equilibrista no cadarço do all star.
Agora eu penso no pró
ximo passo – Julho e musgo de carvalho,
cujo incenso é fluxo dos meus cachos pelo quarto vazio.

Existe uma palavra.
Procuro no infinito de uma fotografia velha:
Uruguayana, perto do bosque dos jequitibás.
Eu em meu carro vermelho, pedalando. Tem uma criança que não conheço mais.
Estou sorindo la no fundo, no centro de tudo, eu existo.

– Existe uma outra coisa ali. Bem ali, perto da cor vermelha.
– Silêncio para um soluço.

Júpiter.
( Quando cheguei de lá, não sabia dizer um monte de palavras.
Hoje sei que elas são como um silêncio que a gente diz).
E cantar envolve certa força, mas eu tenho as vias dilatadas e por isso desafino.

Não fumo. Andei uma vez a cavalo, e foi como virar Centauro.
Fumo sim. Ás vezes.
Conheci Bob Dylan tarde demais.

– Um trago.
-Qantos mais essa minha’sma compra?

Time and time again…
O Chet e coisa e tal.
É inverno, e além do mais…

O PILAR


Uma vez, para que a vida não desmoronasse,
construí um apoio

Tratava-se de um falso pilar,
algo feito com a areia do mar

O pilar não suportou os tremores e os impactos de alguém que existe,
que vive de verdade

O frágil apoio, naturalmente, caiu
A vida, entretanto permanece

Eu continuo aqui!

– SEM TÍTULO –


Os longos cachos vermelhos que ela usava na graduação

Um corpo perfeitamente esculpido, que roçava com o meu no colegial

O olhar meigo com que me olhava no fundamental

Seu bom gosto para filmes
A ousadia de suas atitudes

Lembro-me sempre delas…
Observo-as no passado
Acaricio-as no passado
Beijo-as no passado
Amo-as no passado

Mas tudo isso agora não é…
Está morto!
Sou um necrófilo de um tempo perdido!

QUATRO ANOS


Quatro anos…

Enclausurando-me solitariamente em bibliotecas, confraternizando com meus conhecidos em busca de respostas

Tendo aula com acadêmicos que levam uma vida monástica em nome da Deusa

Aprendendo com gurus que conseguem flutuar sobre as mentiras e a falsidade

Levando uma vida boemia,
indo de botequim em botequim,
festa em festa,
para aprender, com os filhos de Dionísio,
o sentido da alegria e da simplicidade

E agora, finalmente,
quando consigo abrir meus olhos,
percebo as correntes que me prendem a esse mar de lama e dissimulação

No entanto,
por mais que eu me esforce,
não consigo me libertar,
não consigo abandonar o porto